quinta-feira, novembro 02, 2006

 

O Carnaval de Finados


O Carnaval de Finados
No México, o dia dos mortos não é de luto. Os entes queridos
são lembrados, em casa e nos cemitérios, com muita festa e música.
por: Ricardo Beliel

Na maioria dos lugares deste mundo, 2 de novembro é um dia de tristeza, de roupas pretas, de músicas dolentes. No Dia de Finados, igrejas dobram os sinos, os pais censuram os gritos e traquinices das crianças, os cemitérios enchem-se de parentes e amigos que vão dolorosa ou resignadamente chorar ou relembrar os entes queridos. Há um país, no entanto, em que a época de Finados não é tempo de luto. É o México, onde as famílias reverenciam seus mortos num ambiente de festa e alegria, tocando suas músicas preferidas e enchendo túmulos e altares caseiros com oferendas como tequila e as comidas que os defuntos mais gostavam. Nosso repórter conta como passou os Finados na região do Lago Pátzcuaro, no Estado de Michoacán, onde a festa atinge seu ponto máximo.
Como certamente a maioria dos brasileiros, nunca tive uma relação de muita intimidade com a morte. Assim, sempre passei ao largo da entrada de qualquer cemitério. .....Mas em terras mexicanas, tudo é diferente. Lá aprendemos a ver a morte com outros olhos e até a nos divertir com ela. A Noite dos Mortos é uma das mais tradicionais e alegres festas do México. Envolve todo o país, e não há mexicano que não dedique uma oferenda ou um trago de tequila a uma alma querida nessa primeira noite de novembro. Querendo entender os mistérios que movimentam multidões para esse carnaval fúnebre, chego a Tzintzuntzan, a grande capital dos índios purépchas no século 15, na região de Michoacán, em plena noite de 31 de outubro. Impressionado, imagino que inverteram o céu e a Terra. Tantas são as velas acesas, que parece ser muito mais do que todas as estrelas do universo. Cruzo o portal do antigo cemitério, decorado com flores amarelas e papéis de todas as cores, e me sinto como se estivesse sonhando. Por entre os túmulos, iluminados por essa constelação de velas, passam por mim correndo crianças vestidas de caveiras, enquanto velhas senhoras riem transbordando felicidade. Grupos de homens com sombreros brindam com estardalhaço suas garrafas de tequila. Ao lado, um jovem de bigodes fartos recita poesia em voz alta sem se importar com uma família concentrada em orações junto a uma grande imagem da Virgem de Guadalupe. Caminhar entre os túmulos é uma aventura. Cantando e chorando á minha frente, um senhor gordo escorrega e enterra metade do braço numa cova de terra fofa. Levanta-se, pede desculpas ao falecido, sorri para mim e segue em direção a um velho que toca guitarra. Passo por eles minutos depois e os encontro cantando e chorando num misto de saudade e alegria.
Parte da matéria publicada na edição #151 da revista Os Caminhos da Terra.


Comentários:
Mariana, no momento deixar um grande abaraço e uma semana feliz. Estou indo logo mais a Rio das Ostras e ao voltar leio com calma o seu post.
Beijos, Edna
 
elas dançam sozinhas.
elas dançam com os mortos.

sting

beijo vagabundo
 
Isabel, saudades deste aqui:)
É interessante esta riqueza cultural... mas tão estranha...
 
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